
O cancro da mama triplo-negativo (CMTN), o subtipo de cancro da mama mais agressivo, apresenta uma incidência desproporcionalmente elevada em mulheres de ancestralidade africana subsaariana. No entanto, a base genética desta disparidade permanece subexplorada, uma vez que os estudos genómicos realizados neste âmbito se têm concentrado maioritariamente em populações de origem europeia e norte-americana.
De forma a ultrapassar esta limitação, realizámos o primeiro estudo genómico de CMTN em doentes dos Países Africanos de Língua Portuguesa (PALOP). Através da sequenciação do exoma completo (incluindo as regiões não traduzidas (UTRs) do genoma) de 30 amostras de Angola e Cabo Verde (coorte africana), foi possível caracterizar o seu perfil de mutações codificantes e com potencial impacto regulatório. Os resultados revelaram uma carga mutacional significativamente superior nesta coorte africana em comparação com coortes europeias. Notavelmente, 86% das variantes identificadas eram potencialmente novas e não tinham sido previamente reportadas, o que sublinha o vasto potencial de descoberta associado ao estudo de populações africanas. Com base numa análise funcional preditiva, 17% das mutações somáticas identificadas em amostras dos PALOP eram potencialmente deletérias para a função das proteínas e 20% sobrepunham-se a elementos reguladores da expressão génica. Além de confirmar o gene supressor tumoral TP53 como um dos atores principais neste fenótipo, o nosso estudo identificou ainda um conjunto de putativos novos genes “driver” potencialmente relevantes no contexto africano, incluindo TTN, CEACAM7, DEFB132, COPZ2 e GAS1. Estes genes estão associados a vias cruciais na tumorigénese, como a resposta à radiação e a reparação de ADN.
Em suma, esta investigação enriquece significativamente o catálogo de mutações associadas ao CMTN na África Subsariana e reforça a necessidade urgente de expandir os estudos genómicos de cancro no continente africano. A descoberta de novas variantes é fundamental para aprofundar a compreensão da biologia tumoral e acelerar o desenvolvimento de estratégias de medicina de precisão, contribuindo para mitigar as disparidades globais que existem ao nível do tratamento destas doentes.
Outputs


Em entrevista à revista ecancer, Ricardo J. Pinto discute o perfil genómico de amostras de cancro da mama triplo-negativo de Angola e Cabo Verde, abordando a sub-representação das populações africanas na investigação em ómicas.